Terapia com LU177-PSMA (Câncer de Próstata)

Outros nomes que este procedimento pode ser chamado:

Terapia / Tratamento com PSMA, Terapia / Tratamento com Radioisótopo PSMA, Terapia Radionuclídica com PSMA, Terapia / Tratamento com Lutécio-PSMA, Lutécio-PSMA, Lu177-PSMA, entre outras variações.

 

 

Introdução:

O câncer de próstata representa uma das neoplasias malignas mais comum entre os homens no Brasil ficando atrás apenas do câncer de pele não-melanoma, com uma incidência de milhares casos por ano no país, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA).
As metástases mais comuns são para linfonodos e ossos e, em estágios mais avançados, a doença necessita de tratamentos sistêmicos. Em determinada fase, a doença deixa de responder a tratamentos anti-hormonais, tornando-se castração resistente e demandando tratamentos como quimioterapia ou combinação de tratamentos. Para esses casos, a terapia radionuclídica com Lutécio177-PSMA tornou-se disponível nos últimos anos.

Indicações:

Os pacientes que podem se beneficiar da terapia são aqueles com doença metastática resistente a castração com progressão de doença após tratamento com novas drogas antiandrogênicas (como enzalutamida e abiraterona) e quimioterapia, que apresentem lesões com expressão de PSMA confirmado pelo exame de PET-PSMA. Em alguns casos, pode ser necessária avaliação também com PET-FDG. Os principais estudos a respeito da terapia com PSMA não incluíram pacientes com lesões com baixa expressão ou sem expressão de PSMA, bem como aqueles com lesões positivas no PET-FDG, pois acredita-se que tendem a ter pior resposta ao tratamento, e isso deve ser levado em consideração dependendo do quadro clínico e da existência de outras opções de tratamento. Além disso, existem critérios clínicos para indicação do tratamento, sendo os principais boa capacidade funcional / performance status do paciente (escala de ECOG), boa função renal e hepática e hemograma com níveis mínimos necessários de hemoglobina e leucócitos e contagem de plaquetas.

Radiofármaco:

O antígeno prostático específico de membrana (PSMA) é uma glicoproteína transmembrana expressa no tecido prostático normal e com intensidade de expressão de 100 a 1000 vezes maior no câncer de próstata e em suas metástases. Os ligantes de PSMA marcados com radioisótopos emissores de partículas alfa e beta podem ser usados para teranóstico em pacientes com câncer de próstata. O conceito de teranóstico é a utilização de substâncias radioativas que emitem tanto ondas utilizadas para fazer exames de imagem quanto ondas utilizadas para tratamento. No caso da terapia com PSMA, o radiofármaco mais utilizado é Lutécio177-PSMA, que é um emissor beta que tem a capacidade de se acumular nas células de câncer de próstata que expressam PSMA e causar a morte dessas células. No Brasil, a molécula utilizada é 177-PSMA-617.

Preparo:

Recomenda-se seguir o preparo enviado pelo nosso setor de agendamento. O ideal é que o paciente esteja bem hidratado (beber água ou outros líquidos previamente ao exame). O paciente deve tomar suas medicações normalmente, inclusive no dia do tratamento.

  • Como é feita a terapia?

Inicialmente uma consulta com o médico nuclear será agendada para avaliação da indicação do tratamento, explicação do procedimento e esclarecimento de dúvidas bem como discussão de pontos importantes com o paciente. O tratamento será realizado em ciclos, em geral de 4 a 6 ciclos com intervalos de 6 semanas entre eles. Entre os ciclos é feito acompanhamento semanal com o médico nuclear e solicitaçao de coleta de exames.
No dia do tratamento, após a abeertura da fica pelo setor recepçao, paciente será encaminhado ao setor técnico para confirmaçao dos dados e preparo. Na sequencia o radiofármaco será injetado de forma intravenosa lentamente em uma veia periférica em que será mantido soro fisiológico para hidratação. A critério médico, o uso de corticoide, anti-eméticos e diuréticos poderão ser utilizados. O paciente poderá permanecer na clínica ou hospital pelo período de internação é de 8 a 24 horas, a depender de cada caso. Após 24 a 48 horas após a injeção de 177Lu-PSMA será necessário retornar à clínica / hospital para realização das imagens do corpo inteiro (PCI pós-dose), a critério médico.

Efeitos colaterais e contraindicações:

Os benefícios e riscos do tratamento devem ser pesados individualmente para cada paciente. São contra-indicações relativas capacidade funcional / performance status baixo (ECOG ≥ 3), incontinência urinária intratável, obstrução de trato urinário ou hidronefrose agudas, comorbidades psiquiátricas de difícil manejo, outras comorbidades graves (ex. cardiovasculares), deterioração progressiva de função de órgãos com risco de falência de órgãos (taxa de filtração glomerular < 30 ml/min, creatinina sérica duas vezes acima do limite superior da normalidade, enzimas hepáticas cinco vezes acima do limite superior da normalidade), vigência de infecções agudas, supressão medular (leucócitos < 2.500/ml, neutrófilos < 1.500/ml, plaquetas < 75.000/ml), além de dever ser levada em conta a expectativa de vida. Os efeitos colaterais mais comuns incluem fadiga, náusea, mielotoxicidade, toxicidade renal e hepática e xerostomia (prejuízo da função das glândulas salivares). Efeitos severos ocorrem em menos de 10% dos pacientes. Dependendo da toxicidade ocorrida, pode ser necessário suspender o tratamento ou atrasar a aplicação do próximo ciclo.

Como solicitar?

Solicitação de avaliação pela medicina nuclear de terapia radionuclídica com PSMA.

Considerações finais:

A terapia radionuclídica com Lutécio177-PSMA é uma nova opção de linha de tratamento que tornou-se disponível nos últimos anos para pacientes com câncer de próstata em estágios avançados e lesões com expressão de PSMA confirmado pelo PET/CT com PSMA. A terapia é realizada em ciclos, através de injeção venosa, e são necessários exames laboratoriais para determinar sua indicação em cada caso. Os principais efeitos colaterais são fadiga, náusea, xerostomia (boca seca) e alterações da função da medula óssea, rins e fígado e, por isso, os benefícios e riscos do tratamento devem ser pesados individualmente para cada paciente e é necessária consulta com o médico nuclear antes da indicação do tratamento e acompanhamento.

Referências Bibliográficas:

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Autora: Dra. Daniela Andrade Ferraro – CRM / SP 169.549 – Médica Nuclear

CRM / SP 169.549 – Médica Nuclear