Tratamento para Câncer da Tireoide com 131I

Outros nomes que este procedimento pode ser chamado:

Iodoterapia, Terapia com Iodo 131, Radiodoterapia (RIT).

Introdução:

O câncer de tireoide é a neoplasia endócrina mais comum e uma das mais comuns em mulheres. Apresenta um comportamento clínico variado, entre tumores indolentes e tumores de rápido crescimento, dependendo da histologia da lesão.
A maioria é composta por câncer de tireóide diferenciado (DTC), sendo responsável por pelo menos 95% dos casos de câncer de tireoide, e o subtipo papilífero o mais comum. Em pacientes pediátricos, embora mais raro do que em adultos, o DTC também é o câncer endocrinológico mais comum.
A radioiodoterapia (RIT) consiste na administração sistêmica de iodo-131 para irradiar de modo seletivo restos de células da tireoide ou de células tumorais do DTC, tal como lesões microscópicas ou irressecáveis. É comumente definida como ablativa quando usado como um complemento adjuvante à cirurgia para erradicar o tecido tireoidiano microscópico desconhecido (não observados em exames de imagem), reduzir a recorrência da doença ao longo prazo e melhorar a mortalidade. Também pode ser definido como tratamento quando existe doença conhecida irressecável no pescoço ou em metástases em outros órgãos como os pulmões e os ossos, visando estabilizar a progressão da doença, sendo a modalidade inicial de escolha no DTC avançado com intenção curativa ou paliativa.
Após a cirurgia inicial, a radiodoterapia com iodo 131 segue como uma das terapias complementares de escolha, devido à alta expressão do importador de sódio-iodo (NIS) pelas células do DTC, uma vez que o iodo 131 emite partículas β de alta energia, o que não é o ideal para imagens, mas permite a avaliação com a PCI após iodoterapia.

Indicações:

Em adultos:

  • Primeiro com objetivo de ablação dos remanescentes tireoidianos, quando o objetivo do tratamento é eliminar restos microscópicos da tireoide que podem produzir tireoglobulina (Tg) ou induzir a produção de anticorpos anti-tireoglobulina (anti-TgAb) e assim acelerar o processo para que os níveis séricos desses dois biomarcadores se tornarem negativos.
  • Segundo com o objetivo de terapia adjuvante, quando a doença persistente pode estar presente e o objetivo é controlar e reduzir as chances de recorrência melhorando o resultado oncológico.
  • O terceiro objetivo é quando há doença persistente conhecida, doença macroscópica e anatomicamente identificável, e o foco é induzir resposta e remissão do câncer (respostas parciais ou completas) ou controlar a doença controle para evitar sua progressão.

Em crianças:

  • A RIT está focada em tratar doença linfonodal metastática que não pôde ser ressecada cirurgicamente ou no tratamento de metástases distantes, especialmente metástases pulmonares.

Radiofármaco:

Iodo 131.

Preparo:

O iodo 131 é administrado oralmente e sua administração dependente dos níveis séricos de TSH, onde é recomendado que seus níveis estejam pelo menos 30 μUI/mL ou acima, e há duas maneiras possíveis para aumentar o TSH, determinando dois tipos de protocolo detalhados a seguir.

Radiodoterapia com suspensão hormonal:

  • Paciente será orientado sobre a realização de uma dieta pobre em iodo, que deverá ser realizada 15 dias antes da terapia.
  • Além disso, deverá ser evitada a realização de procedimentos com iodo 30 a 90 dias antes, tal como tomografias com contraste e Papa Nicolau por exemplo.
  • Deverá ser suspenso o uso de hormônios tireoidianos 30 dias antes da administração do iodo (sob supervisão médica).
  • O consumo de medicamentos como amiodarona, ricos em iodo, deverão ser suspensos 90 dias antes do exame, com autorização do médico solicitante e/ou cardiologista.
  • Serão solicitadas coletas de exames de sangue em datas específicas, que será orientado pelo nosso setor de agendamento.
  • No dia agendado para o tratamento o paciente deverá estar em jejum conforme orientado pelo nosso time.

Radiodoterapia com estímulo do TSH recombinante (Thyrogen):

  • Paciente será orientado sobre a realização de uma dieta pobre em iodo, que deverá ser realizada 15 dias antes da administração do iodo.
  • Além disso, deverá ser evitada a realização de procedimentos com iodo 30 dias antes, tal como tomografias com contraste e Papa Nicolau por exemplo.
  • O paciente deve manter o uso de hormônios tireoidianos normalmente.
  • O consumo de medicamentos como amiodarona, ricos em iodo, deverão ser suspensos 90 dias antes do exame, com autorização do médico solicitante e/ou cardiologista.
  • Paciente deverá coletar os exames de sangue em datas específicas, conforme orientado pelo setor de agendamento.
  • Paciente deve comparecer na clínica no dia e hora agendados para administração das injeções do Thyrogen, por via intramuscular nos glúteos (nos dois dias que antecedem a administração do iodo).
  • No dia agendado para administração do iodo, o paciente deverá estar em jejum conforme orientado pelo nosso time.
  • Nos dois dias que antecedem a aquisição das imagens, o paciente deverá fazer uso de laxante conforme orientativo.

Como é feita a terapia?

  • Todos pacientes encaminhados para nossa clínica para radiodoterapia passarão por uma consulta com um dos nossos médicos nucleares, onde serão analisados os resultados do anatomopatológico, exames de sangue e imagem, para então definir a melhor dose para cada paciente.
  • No agendamento todo o preparo anteriormente descrito será melhor detalhado para o paciente, inclusive por escrito.
  • No dia da terapia, após a abertura da ficha cadastral e conferência dos dados e exames solicitados, o paciente será direcionado para a área técnica (caso seja dose ambulatorial) ou para a ala hospitalar (caso seja dose em regime de internação). O iodo 131 será administrado por via oral pelo nosso setor técnico / médico.
  • O paciente será orientado sobre todos os cuidados de radioproteção (inclusive receberá por escrito).
  • Caso a dose seja ambulatorial, o paciente estará na sequência autorizado por um dos nossos médicos a retornar para casa, onde deverá cumprir os cuidados de radioproteção.
  • Caso a dose seja em regime de internação, o paciente poderá permanecer o dia na clínica, ou ainda, repousar por uma ou duas noites no quarto hospitalar, a depender da dose administrada e das condições clínicas de cada paciente.
  • Após a alta, os cuidados de radioproteção orientados pelos médicos, devem ser mantidos por 5 a 7 dias, a depender da dose administrada.

Contraindicações:

Gestação e lactação (deve ser suspensa de modo definitivo).

Efeitos colaterais:

Reações adversas ao radiofármaco são raras e, quando ocorrem, comumente são de forma leve, tal como dor de cabeça e náuseas. Doses maiores utilizadas na iodoterapia podem fazer com que o paciente também apresente sensação de inchaço / edema na face e pescoço, boca seca ou alteração do paladar, de modo temporário na maioria dos casos.

Como solicitar?

  • Tratamento de Câncer de tiroide – Código TUSS: 40710041 / Código SUS: (vide abaixo conforme a dose)
  • Iodoterapia de carcinoma diferenciado de tiroide (100mCi) – Código SUS: 03.04.09.002-6
  • Iodoterapia de carcinoma diferenciado de tiroide (150mCi) – Código SUS: 03.04.09.001-8
  • Iodoterapia de carcinoma diferenciado de tiroide (200mCi) – Código SUS: 03.04.09.003-4
  • Iodoterapia de carcinoma diferenciado de tiroide (250mCi) – Código SUS: 03.04.09.004-2
  • Iodoterapia de carcinoma diferenciado de tiroide (50mCi) – Código SUS: 03.04.09.006-9
  • Iodoterapia de carcinoma diferenciado de tiroide (30mCi) – Código SUS: 03.04.09.005-0

Considerações finais:

A terapia de ponta atual do DTC envolve a cirurgia inicial e a sua extensão será ditada pela carga de doença, seguida por terapia supressora do hormônio tireoidiano. Com base no risco de recorrência é proposta radiodoterapia adicional (RIT) com objetivo ablativo ou terapêutico.

Referências Bibliográficas:

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Autores:

Dr. George Coura – CRM / SP 112.052 – Médico Nuclear

Dra. Mayara Torres S. de Oliveira – CRMSP 147.385 – Médica Nuclear

CRM / SP 112.052 – Médico Nuclear