Cintilografia das Câmaras Cardíacas

As técnicas radioisotópicas de avaliação da função ventricular são consideradas os métodos padrão para a mensuração da fração de ejeção dos ventrículos esquerdo (FEVE) e direito (FEVD) devido seu alto potencial em analisar a variação da radioatividade no interior das câmaras cardíacas nos momentos de sístole e diástole, sem sofrer interferência da geometria, de alterações segmentares da cavidade ventricular e por apresentar baixa variação inter e intra-observador.

Até o fim da década de 1980 foi o método não invasivo mais amplamente empregado para avaliação da função ventricular por se tratar de um método altamente preciso e reprodutível, sendo particularmente útil para acompanhamento seriado da FEVE e FEVD.

O objetivo principal deste exame é a avaliação funcional da câmara ventricular esquerda, incluindo motilidade global e segmentar, volumes, além do cálculo da fração de ejeção. Ressalta-se também, que outra importante contribuição da ventriculografia é a avaliação do dissincronismo cardíaco em pacientes com doença coronariana (Ex.: aneurisma apical) e, naqueles portadores de marcapasso multissítio, para avaliação da eficácia do ressincronismo.

A ventriculografia, quando associada à técnica de primeira passagem, fornece informações adicionais em relação ao ventrículo direito (contratilidade e fração de ejeção), tempo de trânsito pulmonar médio nos portadores de hipertensão pulmonar primária e secundária, além da possibilidade da detecção e quantificação de comunicações intracavitárias.

>> Principais Indicações Clínicas

-> Avaliação de cardiotoxicidade por quimioterápicos (Ex.: grupo das Antraciclinas) – É indicado estudo basal antes do início do tratamento e repetido nos intervalos de cada ciclo.
-> Investigação não invasiva da função biventricular (Ex.: cardiopatias adquiridas ou congênitas, coronariopatias, valvopatias, miocardites, miocardiopatias etc.).
-> Determinação precisa dos volumes ventriculares.
-> Grau de comprometimento das funções sistólica e diastólica (importantes determinantes isolados de sobrevida).
-> Avaliação da função ventricular direita (Ex.: pacientes com patologias pulmonares, isquemia ventricular direita, transplante cardiopulmonar etc.).
-> Seguimento pós-infarto agudo do miocárdio
-> Avaliação de displasia arritmogênica do ventrículo direito.
-> Doenças valvulares (Ex.: regurgitações aórticas e mitrais graves) – detectar e quantificar a gravidade da regurgitação.
-> Avaliação de reserva funcional ao exercício.
-> Avaliação, seleção de candidatos e seguimento de pacientes de transplante cardíaco.
-> Candidatos a ressincronização cardíaca (Ex.: ICC grave com miocardiopatia dilatada).
-> Avaliação de dissincronia atrioventricular, interventricular ou intraventricular.
-> Avaliação da motilidade regional do VE (fração de ejeção regional) – fina avaliação das regiões de melhor desempenho contrátil em zonas diferentes do VE.

Ventriculografia radioisotópica de repouso com aumento de volume do VE, que apresenta função contrátil global acentuadamente deprimida, com acinesia ântero-septo-apical. A análise de fase demonstra atraso da movimentação dessas paredes.

>> Principais Contra Indicações Clínicas

-> Não existe contraindicação absoluta para este exame.
-> Não é recomendada a realização do exame para mulheres grávidas ou com suspeita de gravidez.
-> Menores de 18 anos devem estar acompanhados de um responsável legal, que precisa permanecer na unidade até o fim do procedimento.
-> O exame é limitado para pacientes portadores de arritmias cardíacas, tais como fibrilação atrial, uma vez que a sincronização da aquisição das imagens com o ECG mostra-se prejudicada nestas situações.

 

>> Principais Efeitos Colaterais

Os efeitos colaterais são muito raros e quando ocorrem são de leve intensidade. Algumas reações adversas descritas na literatura são: calafrios, febre, cefaléia, náuseas, vômitos, erupções cutâneas, rash, prurido, hipotensão, sudorese e tontura.

>> Como Solicitar

-> Ventriculografia radioisotópica ou Cintilografia sincronizada das câmaras cardíacas – Código TUSS: 40701085 / Código SUS: 02.08.02.008-4
-> Estudo de primeira passagem ou Angiografia radioisotópica – Código TUSS: 40701018 / Código SUS: 02.08.02.008-4
*** Favor incluir o CID, hipótese diagnóstica e/ou indicação do exame.

>> Radiofármaco Utilizado

[99mTc]-hemácias marcadas

>> Preparo

-> Não é necessário jejum. Dieta leve no dia do exame.
-> O paciente deverá suspender, sob autorização do médico solicitante, os seguintes medicamentos: hidralazina, prazosin, propranolol, digoxina, dextrose, doxorrubicina, contraste com iodo, metildopa, quinidina, heparina, solução glicosada, penicilina.

>> Descrição do Procedimento

-> O paciente será recebido pelo setor Recepção, onde deverá providenciar os documentos previamente relacionados para criação ou atualização da ficha cadastral, bem como ler e assinar o termo de consentimento livre e esclarecido para a realização do exame.
-> Receberá um crachá de identificação e será encaminhado ao setor técnico para início do procedimento com uma entrevista para coleta de dados clínicos, verificação de preparo e prestação de orientações.
-> Receberá uma injeção na veia e deverá aguardar 20-30 minutos.
-> Outra injeção com radioisótopo será administrada, também por via venosa.
-> A aquisição das imagens será realizada após a segunda injeção.
-> Tempo aproximado da aquisição das imagens de 30 a 45 minutos.

>> Considerações Finais

-> A FEVE é considerada o parâmetro isolado de maior importância na avaliação cardíaca, sendo amplamente utilizada pela sua capacidade de oferecer informações prognósticas aos pacientes. Em diversas situações, esse índice isolado representa a base para a decisão na conduta terapêutica a ser empregada, influenciando diretamente na sobrevida dos pacientes.
-> A imagem de fase da ventriculografia radioisotópica é a representação gráfica do momento de contração das paredes de cada cavidade cardíaca: regiões que se contraem em um mesmo momento são marcadas com uma mesma cor (como os ventrículos direito e esquerdo); regiões que se contraem em tempos distintos são representadas por cores diferentes (como os átrios em oposição aos ventrículos). O histograma de fase ilustra o momento do ciclo cardíaco em que as diversas regiões (representadas por suas cores) se contraem. A imagem de amplitude é a representação gráfica da intensidade da contração de cada uma das paredes. A imagem virá sempre acompanhada de uma escala de cores. Paredes que se contraem intensamente têm a cor do topo da escala e, paredes com acinesia, apresentam uma cor do fundo da escala.
-> A técnica de primeira passagem tem por objetivo avaliar a função ventricular direita e esquerda pelo registro da primeira passagem do radiotraçador pelo circuito cardiopulmonar, em imagens sequenciais extremamente rápidas (0,032 segundos/imagem). Permite avaliar os parâmetros de função ventricular com alta precisão, podendo ser realizado juntamente com a ventriculografia radioisotópica, permitindo analisar a função cardíaca com base em poucos batimentos cardíacos, sendo ideal para situações em que a função cardíaca se modifica rapidamente, como durante o exercício e em intervenções agudas. A aquisição das imagens pode ser completada em apenas 30 segundos e não requer maior cooperação do paciente.

>> Referências Bibliográficas

1. Thom, Anneliese Fischer; Smanio, Paola E. Poggio. Medicina nuclear em cardiologia: da metodologia à clínica – São Paulo: Atheneu, 2007.
2. Mesquita, Cláudio Tinoco; Da Fonseca, Lea Mirian Barbosa. Medicina nuclear aplicada à cardiologia. São Paulo: Editora Atheneu, 2001.
3. Botvinick, E.H. Scintigraphic blood pool and phase image analysis: optimal tool for the evaluation of resynchronization therapy. J nucl Cardiol 2003; 10:424-8.
4. Feitosa, G.S., et.al. I Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Cardiologia Nuclear. Arquivos Brasileiros de Cardiologia 2002; 78:1-42.
5. Hesse B, Lindhardt TB, Acampa W, Anagnostopoulos C, Ballinger J, Bax JJ, Edenbrandt L, Flotats A, Germano G, Stopar TG, Franken P, Kelion A, Kjaer A, Le Guludec D, Ljungberg M, Maenhout AF, Marcassa C, Marving J, McKiddie F, Schaefer WM, Stegger L, Underwood R. EANM/ESC guidelines for radionuclide imaging of cardiac function. Eur J Nucl Med Mol Imaging. 2008; 35: 851–885.

Dr. Thiago Soares Rocha Alves
CRM SP 148.831
Médico Nuclear

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